| |
Capítulo VII
Assim só doze se aventuraram de Nargothrond, e para o Norte eles viraram o seu caminho secreto, e desapareceram no dia findo. Nenhumas trompas tocaram, nenhuma voz ali cantou, enquanto envolvidos em malha de anéis agora escurecidos com elmos cinzentos e sombrios mantos eles furtivamente avançaram. Acompanhando o saltitante curso do Narog eles seguiram até encontrarem a sua fonte, as trémulas quedas, cujo curso transparente um brilhante cálice de claro vidro com águas de cristal enchia até derramar e descer do Lago Ivrin, cujas águas reflectem vagamente as pálidas faces nuas e cinzentas das Montanhas Sombrias debaixo da lua.
Agora muito longe do reino imune de Orcs, demónios e do medo do poder de Morgoth os seus caminhos os levaram. Em bosques ensombrados pelas alturas eles vigiaram e esperaram muitas noites, até que uma vez quando nuvens apressadas a lua e constelações taparam, e selvagens ventos de Outono começaram a zunir nos galhos, e as folhas iam rodopiando nos escuros remoinhos suavemente sussurrando, eles ouviram um murmuro áspero impelido pelo vento de longe, um riso gutural chegando; agora mais alto; eles ouvem o rufar de horríveis pés moedores que pisam a cansada terra. Então muitos fachos vermelhos eles vêem lentamente aproximar-se, balançando, e cintilando em lança e cimitarra. Ai escondidos na noite eles viram um bando de orcs a passar com faces órquicas escuras e sujas. Morcegos estavam sobre eles, e a coruja, esse fantasmagórico e esquecido pássaro da noite piou das árvores acima. As vozes morreram, o riso como pedras a bater em aço passou e desapareceu. No seu encalço os Elfos e Beren vão mais suavemente que raposas a caçar através de uma quinta em busca de presas. Assim ao campo iluminado pelo cintilante fogo e fachos eles chegam furtivamente, e contam sentados ali trinta Orcs no clarão vermelho de madeira a arder. Sem um som eles um por um silenciosamente os rodeiam, cada um na sombra de uma árvore; cada um lentamente, inflexível, secretamente curva o seu arco e puxa o fio.
Ouvi! como eles subitamente esticam e cantam, quando Felagund deixa sair um grito; e doze orcs rapidamente caem e morrem. Então eles saltam deixando os seus arcos. Desembainham as brilhantes espadas, e rápidos os seus golpes! Os aflitos Orcs agora gemem e gritam como coisas profundamente perdidas num inferno sem luz.
A batalha ali é debaixo das árvores amarga e rápida; mas nenhum orc foge; ali deixaram as suas vidas que vagueavam em bando e não mais mancharão a triste terra com violações e assassínios. No entanto nenhuma canção de alegria, ou de triunfo sobre o mal, os Elfos ali cantam. Em grande perigo eles estavam, pois nunca sozinho para a guerra tão pequeno bando de orcs ia, eles sabiam. Rapidamente as roupas eles tiram e jogam os corpos num buraco. Este desesperado conselho tinha a astúcia de Felagund para eles pensado: como Orcs os seus camaradas disfarçar.
As lanças envenenadas, os arcos de corno, as espadas malditas que os seus inimigos usavam eles tomam; e reluctantemente cada um entra nas sujas e tristes vestes de Angband. Eles untam as suas mãos e belas faces com escuros pigmentos; o cabelo emaranhado todo escorrido e preto das cabeças dos orcs eles cortam, e juntam-no fio por fio com arte élfica. Enquanto cada um olha para os outros consternado, à volta das orelhas ele balança nauseabundo, horrível. Então Felagund cantou um feitiço de transformar e de mudanças de formas; as orelhas deles cresceram horrivelmente, e a aumentar as suas bocas começaram, e como um presa cada dente se tornou, enquanto lentamente ele cantava. As suas vestes Élficas eles esconderam, e um por um atrás dele deslizaram, atrás de uma coisa suja e órquica que outrora foi um belo rei élfico.
Para Norte eles foram; e Orcs encontraram que passavam, nem a sua marcha eles paravam, mas saudavam-nos; e mais ousados eles ficavam enquanto mais milhas passavam. Por fim chegaram com pés cansados para além de Beleriand. Eles encontraram as rápidas e jovens águas, ondulantes, pálidas prateadas do Sirion apressando-se através daquele vale onde Taur-nu-Fuin, Noite Mortífera, as altas florestas sem caminhos vestidas de pinheiros, caem escuras lentamente para baixo sobre o lado este, enquanto do lado oeste a curva para norte das Montanhas cinzentas barra a luz do dia ocidental.
Uma alta ilha ai se erguia sozinha no meio do vale, como uma pedra que rolou das vastas e distantes montanhas quando gigantes em tumulto a arremessaram. À volta dos seus pés o rio passava, num leito dividido, que tinha esculpido as penduradas pontas em cavernas. Ali eram brevemente estremecidas as ondas do Sirion e corriam para outras costas mais limpas. Uma torre élfica tinha sido, e forte era, e ainda era bela; mas agora sombria com ameaça olhava de um lado para a pálida Beleriand, do outro para aquela triste terra para além da boca norte do vale. Dali podiam ser vistos os campos da seca, as dunas poeirentas, o grande deserto; e mais longe podia ser avistada a melancólica nuvem que flutua e desce sobre as grandes torres das Thangorodrim.
Agora naquele monte vivia um mais terrível; e a estrada que de Beleriand ai chegava ele vigiava com atentos olhos de chama. (Do Norte para ai não havia nenhum outro caminho, excepto a leste onde o Desfiladeiro de Aglon estava, esse escuro caminho de medo cheio que só com grande necessidade os Orcs caminhariam através das terríveis sombras da Mortífera Escuridão onde os ramos de Taur-nu-Fuin assomam; e Aglon levava a Doriath, e os Filhos de Fëanor vigiavam esse caminho.)
Os Homens chamavam-lhe Sauron, e como a um deus nos dias vindouros debaixo do seu bastão encantados se curvaram perante ele, e fizeram-lhe os fantasmagóricos templos na sombra. Ainda não pelos Homens enfeitiçados adorado, era agora o servo mais poderoso de Morgoth, Mestre de Lobos, cujo assustador uivo para sempre ecoa nos montes, e sujos encantamentos e escura magia tecia e manejava. Com feitiços esse necromante nas suas hostes mantinha espectros e fantasmas errantes, feitiços falhados e ilegítimos monstros que à sua volta se apinhavam, cumprindo as suas ordens escuras e vilãs: os lobisomens da Ilha do Feiticeiro.
De Sauron a sua vinda não foi escondida; e apesar de na beira eles deslizarem dos ramos da sombria floresta, ele viu-os de longe, e lobos acordou: "Vão! tragam-me aqueles Orcs traiçoeiros," ele disse, "que viajam assim tão estranhamente, como se com medo, e não vêem, como todos os Orcs costumam e são ordenados, trazer-me noticias de todos os seus actos, a mim , a Sauron."
Da sua torre ele olhou, e nele cresceram suspeitas e um pensamento taciturno, esperando, olhando de soslaio, até ele serem trazidos. Agora cercados com lobos eles estão, e temem o seu destino. Ah! a terra, a terra do Narog deixada para trás! As suas mentes prevêem grandes males, enquanto abatidos, hesitantes eles avançam e atravessam a desgostosa ponte de pedra para a Ilha do Feiticeiro, e para o trono ali feito em pedra escurecida com sangue.
"Onde estiveram? O que viram?"
"Na Elficidade; e lágrimas e sofrimentos, o fogo soprando e o sangue fluindo, nós vimos, ai estivemos. Trinta nós matámos e os corpos jogamos numa escura vala. Os corvos sentam-se e a coruja pia onde a nossa ceifa está."
"Vamos, digam-me a verdade, Ó escravos de Morgoth, o que acontece na Elficidade? E Nargothrond? Quem reina lá? Dentro desse reino os vossos pés se atreveram a entrar?"
"Só nas suas fronteiras nós ousámos andar. Ai reina o belo Rei Felagund."
"Então não ouviram que ele desapareceu, e que Celegorm se senta agora no seu trono?"
"Isso não é verdade! Se ele desapareceu, então Orodreth senta-se no seu trono."
Atentos são os vossos ouvidos, rapidamente obteram noticias de reinos onde não entrastes! Quais são os vossos nomes, Ó ousados lanceiros? Quem é o vosso capitão, ainda não o dissestes."
"Nereb e Dungalef e os dez guerreiros, assim somos chamados, e escuro o nosso lar debaixo das montanhas. Sobre a desolação nós marchamos numa missão de necessidade e rapidez. Boldog o capitão aguarda-nos ai onde fogos saem das profundezas com fumo e raios."
"Boldog, eu ouvi, foi recentemente morto a guerrear nas fronteiras desse domínio onde o Ladrão Thingol e o povo bandido se encolhe e rasteja debaixo de olmos e carvalhos na temível Doriath. Não ouvistes então nada dessa linda elfa, de Lúthien? O seu corpo é belo, muito branco e belo. Morgoth iria possui-la no seu lar. Boldog ele mandou, mas Boldog foi morto: estranho vocês não estarem na sua coluna. O Nereb parece furioso, a sua cara está sombria. Pequena Lúthien! O que o preocupa? Porque não ri ele ao pensar no seu senhor a meter uma donzela no seu tesouro, que sujo seja o que foi limpo, que a escuridão esteja onde a luz existia?"
"Quem serves tu, a Luz ou a Escuridão? Quem é o fazedor do maior trabalho? Quem é o rei dos reis terrenos, o maior dador de ouro e anéis? Quem é o mestre da grande terra? Quem os despojou da sua alegria, os Deuses gananciosos? Repitam os vossos votos, Orcs de Bauglir! Não me olhem assim! Morte à luz, à lei, ao amor! Amaldiçoada seja a lua e estrelas no céu! Possa a eterna escuridão que espera lá fora em vagas frias afogar Manwë, Varda e o Sol! Possa tudo em ódio começar, e tudo em mal acabar, nos suspiros do grande Mar!"
Mas nenhum verdadeiro Homem nem Elfo ainda livre iria alguma vez falar essa blasfémia, e Beren murmurou: "Quem é Sauron para impedir o trabalho que há a fazer? A ele nós não o servimos, nem a ele devemos obediência, e agora vamo-nos."
Sauron riu: "Paciência! Não muito mais tempo vocês esperarão. Mas primeiro uma canção eu vou cantar para vocês, para ouvidos atentos." Então os seus olhos fogosos neles põe, e escuridão negra caiu à volta deles todos. Eles só viam como se através de um manto de fumo aqueles olhos profundos nos quais os sentidos sufocavam e se afogavam. Ele cantou um canto de feitiçaria, de trespassar, abrir, de atraiçoar, revelar, descobrir, denunciar. Então de súbito Felagund vacilante cantou em resposta um canto de ficar, resistir, batalhar contra o poder, de segredos guardados, força de torre, e confiança incólume, liberdade, fuga; de mudar e de forma mutável, de ciladas iludidas, armadilhas quebradas, da prisão a abrir-se, da corrente que quebra.
De cá para lá andava o canto deles. Cambaleante e soçobrante, quando cada vez mais forte o canto de Sauron se dilatava, Felagund lutava, e toda a magia e poder concentrava da Elficidade nas suas palavras. Docemente no escuro eles ouviram as aves cantando longe em Nargothrond, o suspiro do mar para além, para além do mundo ocidental, sobre areia, sobre areia de pérolas na terra Élfica.
Depois adensaram-se as trevas: a escuridão cresceu em Valinor, o sangue vermelho correu ao lado do mar, onde os Noldor chacinaram os Viajantes da Espuma, e roubando levaram os seus barcos brancos com as suas velas brancas dos portos iluminados. O vento assobia. O lobo uiva. Os corvos fogem. O gelo murmura nas bocas do mar. Os cativos tristes em Angband choram. O trovão atroa, as fogueiras ardem, um grande fumo emerge, um ribombar - e Felagund cai sobre o chão.
Olhai! eles estão na sua própria e bela forma, pele branca, olhos brilhantes. Não mais abrem como Orcs as suas bocas; e agora encontram-se denunciados nas mãos do feiticeiro. Assim chegaram eles infelizes ao desgosto, a masmorras que nem esperança ou luz conhecem, onde presos por correntes que comem a carne e enredados em teias de malhas estranguladoras eles ficaram esquecidos, desesperados.
No entanto nem todos os feitiços de Felagund foram inúteis; pois Sauron nem os seus nomes ou propósito sabia. Estes muito ele ponderou e pensou, e nas suas desgostosas correntes os procurou, e os ameaçou a todos com terrível morte, se um não fosse com palavras traidoras revelar o seu conhecimento. Lobos haviam de vir e lentamente devora-los um por um à frente dos outros, e por fim deveria um sozinho ser deixado aterrorizado, depois num lugar de horror pendurados com angustia deveriam os seus membros ser presos, nas entranhas da terra seria lentamente, eternamente, cruelmente, posto à dor e tormento, até tudo declarar.
Mesmo enquanto ele ameaçava, assim aconteceu. De tempos a tempos no cego escuro dois olhos apareciam, e ouviam assustadores gritos, um som de estraçalhar, de algo a comer no chão, e sangue a correr eles cheiravam. Mas nenhum se submeteu, e nenhum disse nada.
|
|