Ents

Escrito por Gwen e Anor. Publicado em Raças

Yavanna, a dadora de Frutos e Rainha da Terra, que amava todas as coisas que cresciam e que lançara as sementes à Terra, receava o que poderia ser feito na Terra Média com as suas obras, quando os filhos de Ilúvatar despertassem. E ainda ficou mais apreensiva quando Aulë, seu esposo, lhe contou que tinha feito os sete pais dos Anões, e como Ilúvatar tinha sido misericordioso e os tinha aceite como filhos adoptivos. Pois, como Aulë, tinha ocultado dela esse pensamento e conservou o seu trabalho escondido, com receio de que os outros Valar não aprovassem, Yavanna sabia que os filhos de Aulë sentiriam pouco amor pelas suas obras e que amariam sempre primeiro as coisas feitas pelas suas próprias mãos; e assim muitas árvores sentiriam as suas mordeduras. Mas Aulë fez-lhe ver que isso também aconteceria com os filhos de Ilúvatar, pois ele daria o domínio aos filhos e eles utilizariam tudo quanto encontrassem em Arda, embora, por sua vontade, não sem respeito ou gratidão. 

Por isso, Yavanna procurou Manwë, preocupada com o que aconteceria com as árvores e com os seus trabalhos, em dias futuros. Mas Manwë tranquilizou-a, pois Ilúvatar permitiu-lhe que tivesse uma visão completa do canto dos Ainur, e disse a Yavanna: “ Quando os filhos de Ilúvatar acordarem, então o teu pensamento acordará também e convocará espíritos de longe, e eles irão entre as coisas que crescem com raízes na terra e os animais; e alguns habitarão lá e serão reverenciados e a sua justa cólera será temida. Durante algum tempo: enquanto os primogénitos estiverem em seu poder e enquanto os vindouros forem jovens”. 

E assim, apareceram os Ents, meio-Homens, meio-Árvores, vindos do pensamento de Yavanna, os Pastores das grandes Florestas de Arda. Foram os Elfos que despertaram os Ents e as árvores, ensinaram-nas a falar e eles adoravam aprender muitas linguas. Mas a sua lingua é o Entês; leva-se muito tempo a dizer qualquer coisa nessa lingua, pois o nome conta a história das coisas a que pertencem e está sempre a crescer. Mas depois chegou a grande escuridão e os Elfos atravessaram o mar ou fugiram para vales distantes e esconderam-se. E assim as duas espécies separaram-se um pouco. No início, era tudo uma grande floresta; por altura da Guerra do Anel, a Floresta de Fangorn era o restício oriental da grande floresta que em tempos ia até às Ered Luin. 

Os Ents são grandes e robustos, e têm uns olhos muito profundos. São muito calmos e nada precipitados, sábios e gentis; mas quando se zangavam a sua ira era terrível: podiam esmigalhar pedra e aço com as mãos e eram temidos com razão. Amavam as árvores e guardavam-nas do mal, pois eram os seus pastores e guardiões. 

O seu aspecto era muito variado, em forma, cor, aspecto e constituição. Alguns Ents eram mais velhos e tinham um aspecto mais barbudo e nodoso, como árvores saudáveis mas antigas. Outros eram altos e fortes, de membros perfeitos e pele lisa, como árvores florestais na sua pujança. As suas diferenças eram muitas, nas formas, cores, comprimento de pernas e braços, o nº de dedos dos pés e das mãos (havia de tudo, de 3 a 9). Uns lembravam faias ou carvalhos, outros castanheiros, freixos, abetos, bétulas ou sorveiras. Eram mais firmes do que os Homens e Elfos e mantinham as coisas em mente durante mais tempo. Os Ents tinham uma bebida que parecia água mas tinha um perfume que recordava o cheiro de uma floresta distante. Proporcionava repouso e vigor e fazia crescer. 

O Senhor dos Ents era Fangorn, ou Barba de Árvore. No final da 3ª Era, para além dele, só restavam dois Ents dos mais antigos, que tinham caminhado antes da grande escuridão: Finglas (Tufo de Folhas) e Fladrid (Pele de Cortiça). Mas Tufo de Folhas tinha-se tornado sonolento, quase arboril: gostava de estar sózinho, meio adormecido. E Pele de Cortiça vivia nas encostas das montanhas e tinha sido ferido pelos orcs; e muitos dos seus e das suas manadas de árvores foram assassinadas e destruídas. Então, desgostoso, subiu para os pontos altos, para o meio das faias e não queria descer. Havia muitos Ents que estavam a tornar-se sonolentos e arboris. 

As Esposents (e Donzents) eram mais esbeltas. Mas os seus corações não cresceram da mesma forma: os Ents amavam as árvores grandes, as florestas e as vertentes dos montes altos e aprenderam com os Elfos a falar com as árvores. Mas as Esposents entregaram o seu espírito a árvores mais pequenas e gostavam de ver as sementes rebentar nos campos. Não desejavam falar com essas coisas, mas que elas as ouvissem e obedecessem. Ordenavam-lhes que crescessem e dessem folha e fruto como elas gostavam, pois as Esposents queriam ordem, abundância e paz. Por isso, partiram para Este do Anduin quando as trevas surgiram no Norte e fizeram jardins para neles viverem e amanharam os campos. Com o passar do tempo, adquiriram um aspecto mais vergado e castanho do que os Ents, devido ao trabalho a que se dedicavam. Os Ents começaram a vaguear e só de vez em quando visitavam os jardins das Esposents. Muitos homens aprenderam as artes da agricultura com as Esposents e respeitavam-nas muito. Mas quando se deu a Guerra da Última Aliança, Sauron destruiu e queimou completamente os Jardins das Esposents para impedir que elas fornecessem alimento aos exércitos de Gil-galad e Elendil; e nunca mais se viu nenhuma Esposent e os seus jardins foram devastados. Os Homens chamam-lhes agora as Terras Castanhas. 

No entanto, os Ents nunca desistiram de procurar as Esposents e percorriam grandes distâncias na sua busca. Os Elfos fizeram muitas canções acerca da procura dos Ents, mas nunca mais nenhuma foi vista; e pensa-se que a 4ª Era foi a última para os Ents. 

Na canção sobre a lista de criaturas vivas, Barba de Árvore diz: “Ent, o nascido da Terra, velho como as montanhas”. Gandalf afirmou que Fangorn, o Guardião da Floresta, era a coisa viva mais velha que ainda caminhava debaixo do Sol da Terra Média. Fangorn conta a Merry e Pippin que os Trolls não passam de imitações feitas pelo inimigo na Grande Escuridão, à semelhança dos Ents, como os Orcs o são à dos Elfos. Mas diz que os Ents são mais fortes, pois são feitos dos ossos da terra. 

Os Ents não se preocupavam com as grandes guerras, pois diziam respeito principalmente aos Elfos e aos Homens. Mas detestavam orcs e os seus amos pois derrubavam árvores e deixavam-nas a apodrecer, ou então levavam-nas para alimentar os fogos. 

Também não gostavam muito de Anões, pois usavam machados e cortavam árvores. Na 1ª Era do Sol, quando os Anões saquearam Menegroth, a Mansão Oculta de Thingol, os Ents ajudaram os Elfos e avançaram e rechaçaram os Anões para as matas sombrias de Ered Lindon, donde nunca nenhum saiu para escalar os altos desfiladeiros que conduziam a suas casas. 

No entanto, no final da 3ª Era, a relação algo tensa entre Ents e Anões suavizou-se um pouco, através de Gimli. Quando Legolas diz a Barba de Árvore que gostava muito de viajar pela Floresta de Fangorn, com Gimli, seu amigo, Barba de Árvore olhou-o com cara de poucos amigos, dizendo logo: “Anão e porta machado”. Mas Gimli curvou-se profundamente perante Fangorn, quando Legolas o apresentou, e o machado soltou-se-lhe do cinto e bateu ruidosamente no chão. E Legolas explicou a Fangorn que o machado de Gimli não era para árvores, e sim para pescoços de orcs, pelo que o senhor dos Ents ficou mais satisfeito. Assim aconteceu que Gimli, filho de Glóin, para além de ser amigo de um Elfo, foi também o 1º Anão a visitar a Floresta dos Ents, com a permissão de Fangorn. 

Por vezes os Ents reuniam-se para discutir assuntos importantes: eram as Assemblent. Houve uma grande Assemblent antes de os Ents decidirem entrar na Guerra do Anel. Fangorn estava furioso com Saruman, pois ele espiara todos os caminhos e segredos da sua floresta para depois a poder destruir, para alimentar os fogos de Orthanc. Já havia grandes desertos onde outrora havia bosques risonhos, quando os Ents partiram na sua Grande Marcha contra Isengard, pois há muito que estavam a ser ameaçados. Gandalf teve uma acção muito importante, pois não esqueceu os Ents e pediu-lhes o seu auxílio. 

Com os Ents marcharam também os Huorns, espíritos-arboris que os Ents comandavam. Talvez até fossem Ents que se tinham tornado arboris, como pensava Pippin. Conseguiam envolver-se em sombras, disfarçando o seu movimento, e uma vez irados eram extremamente rápidos. Tinham grande força, possuiam voz e conseguiam falar com os Ents, mas tinham-se tornado estranhos e rebeldes. Odiavam orcs e muitos foram exterminados por eles. Enquanto os Ents caminhavam, parecia que a própria floresta marchava atrás deles contra a fortaleza de Isengard. As muralhas de Isengard foram destruídas pela “fúria Êntica” e fizeram grandes lagoas e represas que entraram nas minas de Saruman e limparam tudo, extinguindo todos os fogos e enchendo todas as caves. Alguns Ents foram feridos e um morreu queimado. Saruman e Lingua de Verme ficaram prisioneiros na Torre de Orthanc, com os Ents a vigiá-los. Mas quando a Guerra do Anel terminou Barba de Árvore deixou-os partir, pois não gostava de ver nenhum ser vivo engaiolado; e talvez tenha caído no encantamento da voz de Saruman, como pensou Gandalf. 

Os Ents conseguiram transformar todo o círculo de Isengard num jardim com pomares e árvores, através do qual corria um regato; e a Torre de Orthanc, alta e inexpugnável, espelhava-se na água. 
Aragorn deu aos Ents todo aquele vale e pediu-lhes para vigiarem a Torre de Orthanc em seu lugar. 

Pensa-se que a 4ª Era foi a última para os Ents, tal como Manwë viu na sua visão e disse a Yavanna, apesar de haver paz e a sombra estar finalmente vencida. Mas, sem as Esposents, também não havia Rebents e o Ents estavam condenados à extinção. No entanto, isso não quer dizer que fosse o seu fim definitivo. Ao despedir-se de Galadriel e Celeborn, Barba de Árvore diz o seguinte: 
- Havia muito, muito tempo que não nos encontrávamos, A vanimar, vanimálion nostari!... O mundo está a mudar: sinto-o na água, sinto-o na terra, cheiro-o no ar. Não creio que nos voltemos a ver. 

E Celeborn respondeu: 
-Não sei, Ancião. 

E Galadriel acrescentou: 
- Não na Terra Média, não enquanto as terras que se encontram sob as ondas não subirem de novo. Mas depois, nos salgueiros de Tasarinan, talvez nos encontremos na Primavera. Adeus. 

E a canção que Barba de Árvore cantou a Merry e Pippin também leva a pensar que havia algo mais reservado para os Ents: 

"ENT 

Quando o Inverno chegar, o feroz Inverno que monte e floresta fustigará; 
Quando as árvores caírem e a noite sem estrelas devorar o dia sem sol; 
Quando o vento soprar do cruel Leste, então, debaixo de fustigante chuva, 
Te procurarei e chamarei, para ti de novo voltarei! 

ESPOSENT 

Quando o Inverno chegar e acabarem as canções, quando as trevas descerem finalmente; 
Quando quebrado for o ramo estéril, e a luz e o trabalho passados forem; 
Te procurarei e esperarei até de novo nos encontrarmos: 
Juntos nos meteremos à estrada sob fustigante chuva! 

AMBOS 

Juntos nos meteremos à estrada que conduz ao Ocidente 
E muito longe encontraremos uma terra onde ambos os nossos corações possam descansar!" 

Para terminar, um detalhe linguistico acerca da palavra Ent, que é, na realidade, anglo-saxónica (tal como a lingua dos Rohirrim, que é inglês antigo) e quer dizer “gigante”:

Ent – gigante 
Enteynn – raça de gigantes 
Entisc – de um gigante.

A Ira dos Ents
Os pastores das árvores
Ataque a Isengard

Este artigo foi escrito por Gwen e Anor